‘Não estou confiante, não’, diz aluno do MA sem computador nem Wi-Fi para estudar para o Enem.

Estudantes do Maranhão falam sobre preparação para Enem 2020 em tempos de pandemia — Foto: Agência Brasil

Estudantes do Maranhão falam sobre preparação para Enem 2020 em tempos de pandemia — Foto: Agência Brasil

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2020 foi adiado, mas estudantes do Maranhão seguem angustiados com a realização da prova. O motivo é que grande parte deles não tem acesso a ferramentas fundamentais para o estudo em plena pandemia, como computadores, celulares ou mesmo internet. Pedro Augusto dos Santos Silva, de 16 anos, aluno do terceiro ano da escola estadual Newton Neves, em Itapecuru Mirim, a 106 km da capital, é um desses exemplos.

“Tenho só um celular que está quase me deixando na mão. Muita vezes, eu não tenho internet suficiente para acessar o YouTube ou outro meio virtual. Não tenho Wi-Fi e penso, também, não só em mim, mas em outros alunos que nem um celular têm, ou nos que tem o aparelho, mas não têm o acesso à internet”, disse Pedro, que é presidente do grêmio estudantil.

Desde de março, quando as escolas do Maranhão precisaram suspender as aulas presenciais, iniciou-se uma busca por soluções para que os estudantes não ficassem desamparados. A internet foi escolhida, então, como a principal plataforma para auxiliar na distribuição desse conteúdo.

Valkyria Fonseca, de 17 anos, estuda em um colégio particular na Região Metropolitana de São Luís e faz parte do grupo de alunos que possuem as ferramentas necessárias para continuar acessando o conteúdos acadêmicos pela internet. No entanto, a experiência de Valkyria traz dois outros dilemas vividos por quem tem estudado em casa: qualidade instável da internet e dificuldade para se concentrar.

Valkyria Fonseca é a segunda aluna agachada da direita para esquerda — Foto: Arquivo Pessoal

Valkyria Fonseca é a segunda aluna agachada da direita para esquerda — Foto: Arquivo Pessoal

“Tem sido mais difícil estudar, porque na escola eu tinha mais facilidade pra me concentrar, e, além disso, também tem a questão da internet. Às vezes, a conexão cai no meio da aula e eu acabo perdendo boa parte da explicação do conteúdo”, descreve a aluna, reforçando que tem tentado se preparar da melhor forma possível.

Lá em Itapecuru Mirim, Pedro diz que os professores também têm se organizado para disponibilizar materiais acadêmicos, mas que sentido muita falta da ‘aglomeração’ da sala de aula. “Pra falar a verdade, está sendo bem ruim conseguir me concentrar em casa para estudar. O bom era estar na escola, naquela aglomeração de 45 alunos em uma sala, onde você pode fazer a pergunta direto para o professor. Não é a mesma coisa fazer pergunta pelo WhatsApp, mesmo que eu tente ao máximo fazer todas as atividades e assistir as aulas online”, diz o estudante.

Olhar dos professores

Se de um lado estão os estudantes preocupados em aprender, do outro estão os professores se virando como podem para ensinar. Professor de sociologia em sete instituições diferentes, públicas e privadas, Rafael Carlos diz que a classe vê com preocupação a realização do Enem em tempos de pandemia.

“Apesar dos esforços em nos adequar às diversas ferramentas tecnológicas/metodológicas com o intuito de manter as aulas e cumprir o calendário, ainda pairam incertezas sobre como e em quais condições factuais o vestibular será viabilizado”, sintetiza.

Com alunos na rede pública e privada, tanto na capital quanto no interior do estado, Rafael reforça que as diferenças de oportunidades de acesso do conteúdo na internet pode refletir no desempenho dos estudantes com menos recursos disponíveis.

“Utiliza-se muito a metáfora de que ‘todos estão no mesmo barco’, porém o mais sensato é dizer que todos estão sob a mesma tempestade, porém em embarcações diferentes. Algumas mais confortáveis, outras não. Algumas mais resistentes, outras menos”, diz o professor, lembrando que o aluno não deve fugir da responsabilidade de estabelecer e cumprir os próprios horários de estudos.

Rafael Carlos é professor de sociologia em São Luís e em Itapecuru Mirim — Foto: Reprodução

Rafael Carlos é professor de sociologia em São Luís e em Itapecuru Mirim — Foto: Reprodução

‘Não estou confiante’

Se em tempos pré-pandemia, a ansiedade quanto ao desempenho já faziam parte do processo de realização do Enem, agora a insegurança sobre as condições com as quais essa prova será realizada impacta diretamente na confiança dos estudantes.

Valkyria, ainda que tenha todos os recursos para estudar pela internet, diz não estar tão confiante para a prova em 2020. “Não tanto [sobre estar confiante para o Enem], acho que tendo aula presencial me sairia melhor”, resumiu ela, que não diz não achar uma boa ideia a realização da prova esse ano. “Acho um descaso, tendo em vista a realidade social do nosso país. Vários estudantes não têm como ver aulas online, logo ficam prejudicados por estarem atrasados em relação a outras pessoas que dispõe de todos os recursos para continuar sua rotina de estudos”, argumenta.

Estreante no Enem, Pedro diz que também não está tão confiante para fazer a prova, sabendo que vai precisar se preparar, praticamente, sozinho para o exame.

“Eu não estou confiante não. Essa é minha primeira vez fazendo o Enem e já dessa maneira muito ruim”, disse Pedro, lembrando que o foco, no momento, é a consciência de ficar em casa para combater a Covid-19 e “torcer para os cientistas acharem logo uma vacina, pois só assim vamos voltar para nossas vidas normais”.

O professor Rafael Carlos reforça, ainda, que a decisão sobre a execução da prova não é uma questão simples de ser resolvida e, por isso, não há uma estratégia tão evidente e que pareça ser eficaz. “Entendo que a realização do certame seja importante, mas é preciso bom senso por parte das autoridades responsáveis para que este ocorra em um momento mais viável, onde tenhamos condições razoáveis para a realização do vestibular”, explica.

Enem 2020 será adiado de 30 a 60 dias

Enem 2020 será adiado de 30 a 60 dias

O que diz o Governo do Maranhão sobre:

A suspensão das aulas presenciais

Sobre o assunto, o Governo do Maranhão, por meio da Secretaria Estadual de Educação (Seduc), reforçou que o calendário acadêmico de todas as instituições estaduais de educação (incluindo universidades) seguem suspensos desde março de 2020, em cumprimento aos decretos estaduais e diagnósticos no âmbito dos Comitês de Monitoramento e Avaliação (CMA), em virtude da pandemia do novo coronavírus (Covid-19).

Para execução do regime especial não presencial de ensino, o governo diz que as escolas realizaram planejamento de ações propostas pelos docentes que serão desenvolvidas pelos estudantes, remotamente, sendo de responsabilidade de cada unidade de ensino sistematizar o planejamento das ações, com a utilização de recursos tecnológicos disponíveis.

Ainda segundo o governo, não há data prevista para o retorno das aulas presenciais, uma vez que se necessita de dados epidemiológicos confiáveis que garantam a segurança necessária ao retorno.

Suporte para estudantes com menos recursos

Questionada sobre a existência de alguma política de auxílio a estudantes que não possuam estrutura para acompanhar videoaulas ou aulas remotas, a secretaria disse que tem buscado alternativas para disponibilização de internet gratuita aos estudantes, mas que compreende que esse processo ultrapassa a questão do acesso à internet, especialmente no que diz respeito ao campo emocional dos envolvidos.

Por isso, segundo a secretaria, as escolas foram orientadas a pensarem em plano de reposição de aulas, específico para os estudantes que, por algum motivo, não conseguiram acompanhar as aulas não presenciais, logo que retornarem as aulas presenciais.

As universidades públicas sob a gestão estadual, por sua vez, dispõem de Sistema Integrado de Gestão de Atividades Acadêmicas, bibliotecas virtuais, acesso a plataformas de uso educativo, laboratórios de informática nos seus campi e outras ferramentas de conectividade.

Retorno inicial do Ensino Médio

Há uma perspectiva de retorno inicial dos estudantes das terceiras séries do Ensino Médio, quando do retorno das aulas presenciais, visando fornecer melhores condições a todos no que diz respeito ao Enem. Enquanto isso, a Seduc em parceria com a Eleva Educação e Faculdade Estácio, disponibilizou aos estudantes a Plataforma Resolve Sim, com conteúdos direcionados ao Enem e outros vestibulares, com aulas nas diferentes áreas de conhecimento, simulados e orientações de estudo.

Em consonância, atividades adicionais estão sendo pensadas para o período das férias escolares, de modo a garantir o máximo de acesso aos conteúdos inerentes ao Enem. Atividades extras também tem sido planejadas para o retorno das aulas presenciais.

Fonte: G1 Maranhão.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*